Uma estrada qualquer na Moravia (Czechia)

Sexta-feira. De manhã estou na faculdade de engenharia como que promovendo gauge integrals. A tarde, visita burocrática no instituto. A noite, as ensolaradas 18h, estamos em terras tchecas. E depois de jantar sopa de feijão e falar de pés de tomates selvagens, estamos na estrada. Uma estrada qualquer, que talvez até fosse para num calendário; dessas com uma fileira de árvores de cada lado a determinar onde termina a estrada e onde começam as plantações, ainda verdes, de trigo. Uma estrada que noutra vida deve ter sido um passeio que viu muitos glutões. Suas árvores não são puramente frondosas, são cerejeiras – hoje carregadas de frutos num provocativo vermelho a atiçar os motoristas.

Sexta-feira, noite clara, e estamos pendurados nos galhos dessas provocadoras.image

E embora sejam árvores sem dono, parece existir um suculento sabor de fruto surrupiado somado ao doce-azedo de cada cereja. Não há sacolas, não se trata de  algo premeditado. Tudo acontece no aqui-agora, o quanto couber nas mãos, na boca e no estomâgo.image

Na volta pra casa, língua de fora – como se isso pudesse aumentar a capacidade de armazenamento do estômago.image

Na volta pra casa, apontam a estrada das peras, das nozes… e minha gula da pulos de ansiedade, já sonhando o outono na Moravia que há trazer essas delícias 🙂

Primeiro de maio, (em Praga) dia do amor

Primeiro de maio, dia de subir Petřín, beijar sob as cerejeiras e com isso receber as bençãos de um amor jovem pelas mãos do poeta que escreveu Máj — ou assim reza a lenda do den lásky, o dia do amor em Praga.

Aí você me lembra que não estou em Praga.
Pois é, esse ano não houve Petřín para nós; mas o dia do amor, esse ‘inventamos’ ainda em março, ainda em Czechlands, sob amendoeiras em flor.imageedit_3_4377648830

Mesmo não eternizado pela poesia de Mácha, um jardim em Hustopeče tem chamado atenção, criando quase um local den lásky em meados de março, quando florescem as amendoeiras.

Então, num sábado ensolarado, percorremos os 32 km que separam Hustopeče de Brno, na Moravia do sul, e fomos descobrir a beleza das amendoeiras que ainda não se tinham desmanchado numa chuva de pétalas.imageedit_8_6068407479imageedit_11_4357970017

Entre aquelas árvores que, ignorando as marcas da avançada idade, se enfeitavam de flores eu pensava em Maria Betânia e sua canção Depois de ter você. “.. pra que amendoeiras pelas ruas?”, ela canta. Acho que numa visita a esse jardim em Hustopeče e entende-se o porquê. Pra que amendoeiras?! Para ‘abençoar’ os casais que se beijarem sob seus galhos floridos com um amor sempre jovem… como numa versão da (romântica) lenda que se perpetua em Petřín. 

P.S. A popularidade desse jardim tem crescido e nos últimos anos o desabrochar das flores acompanha uma série de eventos (veja AQUI para o festival ocorrido em 2016).

O começo de tudo (ou virando estudante no exterior)

Com o aniversário do blog chegando, achei que seria um bom momento para me apresentar. Afinal, pode ser que você tenha caído de para-quedas nesse post, pode ser você que esteja por aqui há algum tempo e não sabe da ‘origem disso tudo’ ou pode ser que tenha apenas se esquecido – esquecimento bastante compreensível, pois já se passaram 5 anos desde que comecei a brincar com palavras nesse blog (veja primeiro post AQUI).

Ano passado, quando fui convidada a escrever para o blog Brasileiras pelo Mundo comecei contando um pouco de mim mesclando com informações sobre bolsas e auxílios para estudar no exterior. Compartilho então parte do texto publicado no Brasileiras pelo Mundo e assim me apresento (e quem sabe dou um empurrãozinho com informações para quem quer estudar no exterior).

 * * *

“E então vim reencontrar minhas origens em Praga. Não, não sou descendente de Tchecos.  A questão é que o apelido ‘praga’ sempre me caiu muito bem e é claro que meus amigos e familiares não poderiam deixar de (carinhosamente) observar esse fato quando, em 2010, eu fazia minhas malas para uma temporada na capital da República Tcheca.

Brincadeiras a parte, para contar como vim parar aqui preciso dizer que sou formada em Matemática (e para continuar minha história, vou fingir não notar sua reação aversiva a menção da disciplina que é pesadelo de muitos na escola). E foi exatamente a Matemática que me trouxe aqui – não uma, mas duas vezes.

primeiro seminario em Praga

primeiro seminario em Praga

Minha primeira estadia em Praga aconteceu durante o doutorado graças a uma bolsa do governo brasileiro. A coisa funcionou mais ou menos assim: estabelecido contato com um professor da instituição daqui, solicitamos o auxílio para a visita científica. Meses depois, a proposta foi aprovada: uma bolsa de estágio de doutoramento que carinhosamente chamamos sanduíche (dado que o período no exterior acontece entre períodos no Brasil).

Sem querer fazer politicagem, é preciso reconhecer que atualmente o governo brasileiro oferece uma grande variedade de suportes financeiros para aqueles que têm vontade de estudar fora e nem é preciso estar num nível de pós-graduação. 

Um programa recente (chamado Ciências sem Fronteiras), por exemplo, funciona através de parcerias com instituições estrangeiras e oferece a chance de realizar parte dos estudos do curso de graduação no exterior. Para tanto é preciso atentar para as vagas disponíveis e então seguir o procedimento de inscrição/seleção (que pode variar conforme o edital da chamada). Outra possibilidade oferecida pelo programa são visitas científicas objetivando puramente a pesquisa (que vão desde nível de graduação até pós-doutorado). Nesse sentido vale mencionar também as bolsas subsidiadas pela CAPES, CNPq e, no estado de São Paulo, pela FAPESP. Cada qual tem suas próprias regras e períodos de inscrição, mas em geral seguem o mesmo padrão aplicado a minha solicitação de bolsa: estabelecer um contato na instituição estrangeira e, em conjunto com um professor no Brasil, submeter um projeto de pesquisa ao respectivo órgão de fomento. Com as opções de auxílio em mente, a questão passa a ser a escolha do país.

Então vocês devem estar se perguntando por que escolhi a República Tcheca? Tal qual muitos brasileiros, eu sequer sabia onde exatamente no globo ficava esse país que é praticamente do tamanho do estado de Santa Catarina. Contudo, já durante o mestrado nomes tchecos e eslovacos eram parte do meu dia-a-dia na universidade. Tudo porque aqui é praticamente o berço da teoria matemática com a qual trabalho – a saber, teorias de integração não-absoluta. Assim, fica claro que a escolha pela Academia de Ciências da República Tcheca foi natural. (…)

Foram seis meses de muito aprendizado (matemático e de vida), então voltei ao Brasil e defendi minha tese. Com título de doutora em mãos, procurava emprego no Brasil sem deixar de buscar por oportunidades no ‘quintal do vizinho’ (ou nem tão vizinho, como é caso da República Tcheca). Assim, me candidatei a uma vaga de pesquisadora visitante exatamente no instituto onde tinha estudado em Praga. Logo estava fazendo as malas e ouvindo as mesmas piadinhas de dois anos antes: “Você vai voltar pra sua terra, Praga”.

Hoje ocupo uma vaga de pesquisadora postdoc na Academia de Ciências – que, diferentemente do Brasil, aqui é um funcionário pagador de impostos como outro qualquer. E mesmo com as diferenças culturais, Praga é hoje um pouco mais minha casa”

Bom, essa sou eu: de estudante à doutora.  Těší mě.


Esse texto foi publicado originalmente no blog Brasileiras Pelo Mundo. Para ver o post na íntegra, clique AQUI.

 

Queimando bruxas (e o que restar do inverno)

Semana curta por aí?! Pois em boa parte do mundo também, creio eu. Comentei AQUI que 1° de Maio é mais do que apenas o feriado do dia do trabalho, é também dia do amor. Mas se engana quem pensar que esse é o único destaque dessa semana.

Antes que chegue maio, com todo o romantismo de Máj, temos de encarar as bruxas no último dia de abril:imageedit_10_8957805179

Não, esse não é um Halloween antecipado ou a versão tcheca de tal. Dia 30 de abril é quando, tal qual membros da inquisição, os tchecos mandam as bruxas para a fogueira. Ok, bruxinhas, nada a temer. Apenas a representação de uma bruxa há de virar cinzas.imageedit_2_6992658134

Mas os motivos para brincar com fogo passam longe dos da santa inquisição. A tradição tem um ‘Q’ de paganismo e pode até soar é um rito de passagem: um último adeus ao inverno. Explico. Acreditava-se que as bruxas se valiam do tempo frio para se manterem poderosas e fariam de tudo para que o inverno perdurasse. Portanto, queimando bruxas (ou seu vudu de pano, como de fato acontece) seria uma forma de queimar também os resquícios do inverno (tomara, tomara, amém).

E enquanto a bruxa pega fogo, por que não aproveitar para assar umas linguiças?

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(em meio a toda fumaça, você consegue ver a pessoinha fazendo churrasco?)

S. Pedro não parece estar muito de acordo com a queima de bruxas esse ano, mas se a fogueira queimar o bastante pra dar fim nesse inverno já fico feliz 😉


As fotos são da festança no parque Ladronka no ano passado.
As informações culturais sobre a data eu obtive AQUI.

Feliz (ainda) Páscoa – com pomlázka

Pois é, nada de sexta-feira santa, por aqui o feriado é na segunda-feira. No meu post sobre o tema em 2014 já havia mencionado a Páscoa que acontece na segunda-feira. Apesar de meus esforços em descobrir os porquês da Velikonoční pondělí (Easter Monday), só encontrei referências às tradições que fazem esse dia ser conhecido como pomlázka.Photo0263Lembram do bastão tecido com ramos de salgueiro? Segunda-feira é dia dele entrar em ação. É quando os meninos saem em visitação as meninas/mulheres que conhecem para distribuirem batidinhas de pomlázka. E não há vergonha alguma nesse ‘apanhar‘. A tradição remete a rituais pagãos, onde as batidinhas tinham por objetivos perseguir maus espíritos afastando assim as doenças. Pomlázka, que no tcheco descreve tanto o bastão como a tradição em si, deriva do verbo pomladit que poderia ser traduzido como ‘fazer jovem’.IMG_1475

Hody, hody do provody,
dejte vejce malovaný!
Nedáte-li malovaný,
dejte aspoň bílý,
slepička vám snese jiný…
(versos que acompanham pomlázka)

Essa ‘gentileza‘ ainda é seguida de recompesa. Depois de pomlázka, tendo saúde e juventude garantidas pelo resto do ano, as meninas agradecem entregando ovos decorados, doces ou, para os mais velhos, um shot de licor.

A tradição perdeu um pouco de seu simbolismo no passar dos anos, mas é sem dúvida um momento de diversão – sendo mais comum nas pequenas vilas.

Como carácter religioso ou não, a Páscoa aqui não deixa de ser um momento alegre e uma celebração da vida – assim como a chegada da primavera.

Feliz (ainda) Páscoa!!